Gabi Celan – 2014

A mais importante obra recente é ela mesma, ela mesma em várias instâncias, em vários desdobramentos do mesmo, que já não é mesmo. Talvez nunca tenha sido. Outros existirão nela sem ela saber; vejo claramente o claramento destes outros. Paz – sinceridade, ousadia de ser outrem, que quiçá seu pai e sua mãe deixaram de lado para ser o que deviam, então ela terá que ser o que não devia --- não devia, não podia , poder-ela-á? --- além de tudo poderá mais de si num lugar que ainda não foram seus entes queridos; obsessão em dar certo : a rotina a salva – rotina que é sempre diferente no mesmo .

Vamos indo: quem é Gabiru? Enigma! Uma moça oca que esta sendo preenchida por si mesma, se afirmando; então não era tão oca, já tinha o devir dentro dela. Não há determinismo que não possa ser vencido.  Parsifal.

Gabiru: desenho, chassi, coluna vertical? Desenho-traçado. Fósforo riscando seu casebre esfumaçado no meio do mato denso do desconhecido; desenho papel apodrecido embaixo do tanque úmido --- desenho papel se despedaçando. Falo tanta bobagem na ânsia de capturar o que não se deixa capturar; o que não virá fácil, virá de um viramento, de um tombamento --- ruína, sótão, ponte, abutre, Kafka? Quanta coisa está escorrendo por dentro deste nome GABI, que não sabemos --- sua pequena obra é um questionamento quem sabe disto. Deste acontecimento surdo ---- dessa genética que está se despedaçando na frente do capital ---- será quem sabe sua obra a reconstrução de um CAPITAL MAIS HUMANO, mais vertiginoso, mais exceção, menos soberba. Passar a limpo o que foi esquecido nas cambiações loucas do nosso mundo. Martírio de tantas expiações sujeitas a tantas reformas e reinvenções. Gabi, gabiru, dona Débora, Ubatuba, vila Leopoldina, Canadá, Pirituba, banco Frances, porcas, letras, números, entre tudo isto, ela vai indo pelas sendas do seu buraco oco, loco, toco, moco, sobe as rampas do próprio destino ---- se equilibra entre os dedos vazios do amanhã, que só ela, e mais ninguém poderá preencher. É isto tudo que sua obra recém-inaugurada trata.

Além, além, além, além mar, além terra, além ar, além gabi, só o aqui e o agora.

Rubens Espírito Santo, 2014

Atelier do Centro, SP