O que a Gabi Celan faz quando eu faço museologia?
29.06.17

Depois da aula de pintura do Rubens no atelier do Felipe ontem....pensei alto comigo: o que instiga a Gabi a perguntar com a museologia? A museologia é minha pergunta, é a forma de me colocar no mundo, é o ato de sustentar e implicar-me na visão de mundo que já me é.

 
A museologia tem algumas instâncias que a constituem. A instância com a qual eu estou intimamente envolvida é a da conservação e catalogação; sou apaixonada por cuidar para que uma obra de arte sobreviva, para que um dia alguém possa ler as fichas de catalogação de um desenho de RÉS  e possa se transportar para magia do mundo do Atelier do Centro e do Méthodo RES; para que as fichas de catalogação possam se unir às fotografias, aos escritos de RES, às listas de tarefas e, assim, contar a história de RES, do Atelier do Centro, de nós, discípulos, de um pensamento profundo sobre a vida, sobre sobreviver no mundo.


Desde novembro de 2014 cuido da conservação, organização e catalogação da obra de Rubens Espírito Santo, da Coleção Anna Israel e da Coleção Lisa Gordon. 


As tarefas que sempre percorrem a assistência de museologia são: acondicionar os desenhos da melhor forma possível e com os materiais adequados; cuidar para a maneira como eles serão  guardados dentro das mapotecas; construir
mapotecas – é muito legal, no atelier, durante a assistência de museologia que eu faço, acontecem coisas desde embalar um desenho em glassine e catalogá-lo até colocar a porta do armário em que esse desenho será guardado – isso me fascina; catalogar uma obra de forma mais minuciosa possível é quase como uma forma de dar ferramentas para tatear pequenas coisas que não estão à vista.


Uma coisa incrível de ser museóloga dentro do Méthodo RES é que sou instigada a ir contra a museóloga, instigada a olhar a obra, o outro e a saber o que é melhor fazer museologicamente dentro do contexto do outro e não apenas das regras de museologia. Por exemplo, o desenho da Série Schleier – modelo Manu – 03.MAR.15, feito de caneta esferográfica, que pertence à Coleção Lisa Gordon está desbotando cada vez mais e isso também é o desenho, por exemplo, eu não posso colocar o desenho numa sala com pouca luz para impedir que ele desbote. Se eu fizer isso, na verdade, estou impedindo que ele viva sua vida; isso é uma coisa incrível que aprendo todos os dias no atelier, e talvez isso seja o normal de se aprender quando se pertence a um lugar de excelência. 


Cuidar da obra de RES e das Coleções da Anna e da Lisa é como escrever uma carta de amor para vida. A museologia deve ser uma ferramenta que contribua para que uma obra sobreviva como ela mesma quer sobreviver no mundo e não de uma forma cujos rumos poderíamos controlar ao imaginarmos ingenuamente que sabemos o que seria melhor para ela; sua forma de existir é, mesmo que seja diferente da nossa, também, uma forma de vida.
A obra nos fala o que é melhor para ela.