Gabi Celan – 2017

Por Anna Israel

“Sou responsável por meu dom. Minha comida é um dom, minha geleia com o chá é um dom, minha saúde, minha disposição (hoje sorrindo), o sol entrando pela sala é um dom, o telefonema do meu amigo é um dom, a satisfação de ter cumprido o dever; sua realização é um dom. Minha blusa azul cor do céu está limpa e é um dom, muito especialmente o tempo lá fora e a calefação são um dom, o estado do meu estômago, um dom das alturas, a presença dos meus amados.

Prepare-se para pagar por seus dons com arte.

Prepare-se para pagar suas dívidas com arte.

Você está sacrificando sua liberdade pela arte.”

 

Louise Bourgeois, 13 de outubro de 1997.

 

 

 

                                            “O espírito efetua uma eterna autodemonstração.”

Novalis em Pólen.

Começar pelo minúsculo, pelo insignificante, o quase despercebido, por um gesto quase invisível que vejo como o tropeço do trabalho em direção à solidificação dos pactos, que propulsiona o primeiro gesto de contorção de uma bailarina em direção a conhecer as possibilidades de seu corpo, o primeiro movimento de um bebê que desperta nele nem que seja uma ínfima consciência de que ele está em vivo, de que seu choro pode despertar a atenção da mãe: uma pequena circunferência de ouro maciço, uma arruela minúscula de ouro maciço usada no suporte da Cesta Básica, aqui usada na tensão de uma madeira pintada de azul, velha, que tenciona o que chamamos de mantimentos “básicos” contra a parede: arroz, feijão, farinha de trigo e mandioca, óleo, café, açúcar, sal, macarrão, balas, um monitor de televisão antigo, uma cadeira, livros de arte, filosofia, literatura... do que se trata o básico? O que o mundo chama de básico e o que é mesmo o básico para um ser humano, subjetivamente, o que cada um necessita, para construir a sua própria base, sua estaca que finca os pés na terra? O “básico” de um país subdesenvolvido como o Brasil é uma coisa; na Alemanha, já é outra, e na Gabi, o que é? O que é essa cesta básica que Gabi está construindo para si, está construindo em si? Cesta Básica me parece um amuleto, um escudo de Gabi para a imposição de um país, de uma classe média brasileira, uma demanda de uma classe média brasileira, onde assistir à novela da Globo é a nossa maior fonte de poesia. Um monitor de televisão captando rede nenhuma senão a sua própria rede, Gabi querendo captar em seu trabalho sua rede, seus sinais, sua emissão, sua implicação no mundo, no outro; esse monitor em latência de uma rede a ser captada, obsoleto, não mais útil para as exigências “básicas” de um país sem antena, sem cor, sem dispersão, uma possibilidade para começar a transmutar, a contorcionar o que foi dito, imposto a ela do que deveria ser, do que deveria comer, ler, assistir, vestir, dizer, fazer, e assim retorno para a minúscula arruela de ouro silenciosa em um canto, inserida na Cesta Básica. Retorno para esse detalhe insignificante, para aquilo que transcende a pura e simples necessidade, ou será que essa peça insignificante não é mesmo o que deveríamos entender como nossa necessidade mais vital, uma peça tão pequena e inútil e preciosa, não seria ela o que realmente Gabi está resgatando para manter-se viva, manter-se viva ao contrário de simplesmente sobreviver? Parece-me que a Cesta Básica enseja dar início a uma fala, um gemido com sintaxe de Gabi, inicia a invenção de uma gramática disso que tanto se remexe dentro dela.

 

Gabi inicia a construção de sua própria cesta básica, de uma cesta que levará consigo no içamento de quem é, mune-se dos acessórios convencionais da classe média brasileira, de ser a menina de Pirituba, esposa de um gênio, bailarina, museóloga, aspirante a artista, discípula, filha de pais jovens, criada pelos avós, está em munição do terreno em que está circunscrita, do terreno dela mesma circunscrita, da capenguiçe do Brasil, do “gato”, da falta da alta tecnologia, de soluções para sobrevivência, do pequeno espaço de trabalho que possui no galpão, todos esses apontados para outro sítio, todos são o veneno de uma flecha apontada para uma carreira, para uma profissão em latência, uma profissão em invenção, uma profissão não ensinada nas universidades, que não está descrita nos livros de arte, de filosofia, de literatura, não está fazendo chamada no jornal para novos funcionários, ainda que a chamada esteja sendo feita dentro dela mesma, algo a chama para a destruição dessas paredes de alvenaria, algo a chama a remexer a estrutura das regras ditadas pelo Brasil, pelas regras de sua origem, de seus antepassados, algo a chama a remexer seu próprio mundo subjetivo, desconfia de si mesmo, é chamada a remexer sua fala, sua fala mexe e se remexe por esse pequeno espaço de trabalho no galpão, vai abrindo respiros pelas paredes, que obviamente são suas próprias paredes internas, suas rígidas paredes que aparentam ser somente placas de MDF, e aos poucos, transforma aquele espaço minúsculo em um espaço desejado, vai descobrindo seu corpo como espaço desejado por ela mesma na ânsia que tem em produzir, em vestir sua bota de couro grosso com sua saia plissada de bailarina, e, com sua furadeira de alta tensão, cria amarrações pelo espaço, tensões no espaço, tensões nela mesma, cria problemas plásticos como armadilha para encontrar soluções éticas no pacto com ela mesma. Flecha apontada para aquela circunferência minúscula de ouro que tensiona os primeiros equipamentos de uma cesta básica em pé, firmes, em um começo de uma nova conjuntura, de um novo status de si.

 

Conseguir minimamente ver o trabalho, seria antes, ou concomitantemente, ver quem o fez, se existe algo diante de mim, e, se o pacto para existência desse texto existe, então é porque existe alguém por trás disso, alguém querendo algo, alguém fazendo, alguém caminhando ou engraxando os sapatos para uma caminhada longa, costurando com cabo de aço o couro de sua firme bota de trabalhador para adentrar uma selva ainda inexplorada, uma selva que curiosamente parece-me que, quanto mais adentramos, mais inexplorada ela se revela, e a latência insuportável de sua infinita inexplorabilidade se revela diante de nós. Nesse caso, essa selva chama-se Gabi Celan; esse chamado da selva, é disso que estamos hoje chamando de Gabi Celan, ainda que não saibamos ao certo o que ela é, quem ela é, o que vai fazer, o que está dizendo, hoje Gabi ouve os gritos distantes de uma mulher vinda de seu próprio futuro, e corre velozmente atrás dele, corre atrás desse grito, ainda que essa corrida exista justamente no que ela está conseguindo colocar para fora dela mesma, uma corrida circunscrita em uma arena de 17,5m² do galpão da Rua Teodoro Baima. Quando mais gera movimento externo, mais passos internos, mais mobilidade de manobra gera-se em direção a esse urro, e assim, mais movimento externo, mais mobilidade externa também pode articular. É mesmo uma dança.

A Museóloga

 

Pilhas e pilhas de fichas catalográficas, materiais de precisão, um avental branco, luvas de algodão com as iniciais GC bordadas na beirada, os cabelos presos num rabo baixo, um batom vermelho, sóbrio, seus óculos redondos e um espaço de trabalho onde se articula com imponência, de onde vem essa moça? Banco de dados, cai004, cai008, cai009... O que é a Museóloga? Gabi está construindo uma organização do próprio espaço, do seu próprio espaço de ser bailarina e peão de obra, de ser esposa e também discípula, museóloga e artista, de passar batom e usar calça de trabalhador; é aí onde está a museóloga, a museóloga está nesses arranjos, no modo como se arranja, coreografa novas disposições do próprio espaço escultórico de manobras de seu corpo. O espaço me parece ser um ponto alto propulsor da museóloga, bailarina, peã. Os três eminentemente interessados no espaço: a museóloga com o espaço de configuração das coisas, o espaço técnico, o espaço da previsão para o futuro, organiza os arranjos, que imediatamente se trança com a bailarina, que se arranja pelo espaço que tem, abre espaços fictícios de ação, que possibilita grandes manobras no seu pequeno espaço de trabalho, no espaço supostamente pequeno que é o seu corpo, rodopia pelo seu espaço e vai o transformando em uma dimensão inimaginável. E é claro, a peã quer ser o seu próprio instrumento para erguer esse grande espaço. Um pré-espaço, um pré-espaço-escultura de si mesma, um início de relação dela mesma em seu próprio espaço, uma descoberta do que é esse “ela mesma” e o que é esse “próprio espaço” - trabalha em uma maquete.

 

Seu trabalho claramente está a construindo, Gabi está arranjando um canal de construção através de seu trabalho, inventando um corpo para a fala engasgada, ainda que um balbucio, um balbucio do que quer ser dito já é muito mais valioso do que qualquer dizer que nada tem a dizer. Arranja-se em seu trabalho, constrói um arranjo para a fala que quer falar, para poder se calar, para poder finalmente estar calada. É um alívio poder estar calada sem estar em dívida com a fala, sem culpa, estar fazendo o que é possível ser feito no lugar de ser feito. Sente o alívio de poder calar-se, ainda que desconfiada, graças a Deus, de que a fala só está em exercício de dizer, de que o que temos aqui são os músculos se esquentando, as cordas vocais se esquentando para o fatídico momento. Início da construção de uma dispositivo de conhecimento de si mesma, mesmo que ainda alienada de sua própria construção. Quem sabe, hoje a alienação possa estar a servindo de algo; essa alienação da qual estou falando pode estar sendo útil, uma rede de proteção para não afundar, uma rede de proteção que a mantém fazendo; essa alienação hoje pode a preservar de algo, a propulsionar à construção, mas acredito que o próximo passo para vencer essa fase e poder saltar para a próxima, ou mesmo, dar continuidade ao trabalho, será quando ela estiver pronta a se desalienar dessa construção que vem travando com ela mesma nesses últimos cinco anos. Pode nunca estar pronta, será uma aposta, o seu corpo vai saber quando ele mesmo estará pronto para bancar a aposta. Seu corpo estará pronto para proferir a sua nova pele, sua pele-calejada pela consciência de sua implicação com seu trabalho, isto é, sua implicação consigo mesma. Por ora, pode servir, mas uma hora o trabalho vai lhe cobrar que Gabi se responsabilize por ele, e assuma para, antes de qualquer um, si mesma, que pode.

 

           

Esse início de construção de seu trabalho, desse trabalho de ser Gabi, não deixa de ser um início de reorganização do que ela mesma entende por organização, não deixa de manter uma ordem, não deixa de organizar, mas aqui, vejo um início de aprendizagem com outro tipo de organização, aprende como o próprio trabalho quer ser organizado, como uma Gabi que ela mesma desconhece quer ser colocada para fora, um palco para a fala que não quer saber de uma gramática já manjada, ensinada no ensino médio medíocre da educação de um país subdesenvolvido que é o Brasil, quer criar novos instrumentos para a sua fala, não quer mais saber de como lhe foi ensinado conjugar os verbos, quer arrancar dentro de si mesma suas próprias vogais, as vigas estruturais da cesta básica de quem é. Madeiras velhas, soluções "feias", incorretas, o uso de equipamentos de forma que causaria um espanto para a equipe técnica da fábrica de porcas e sua família, trabalha para deixar de ser certinha, para não falar certinho, para não ser limpinha, para não viver de conjugações de verbos e arroz, feijão e farinha de mandioca e uma bala halls. A classe média brasileira tem isso de querer falar correto, querer conjugar os verbos corretamente, de estar sempre limpo por fora, de criar um cenário artificial externo de que está “tudo bem”, de que as coisas estão sob controle, o sofá no lugar do sofá, a mesa de centro, as paredes bem pintadas, a geladeira abastecida para a semana, uma despensa, um filho, um animal de estimação, um nível básico de inglês, e alguns livros didáticos da faculdade de direito ou administração ou de empreendedorismo na estante... Gabi urge por suspender essas regras, quer falar tudo errado, quer a parede suja, quer martelar uma parede até que ela possa expor o que a sustenta, quer tirar uma sujeira de sua origem que foi toda arrastada para debaixo do tapete e usá-la como matéria prima dessa nova organização do espaço de si, na nova configuração de sua morada; não serão os verbos bem conjugados que a autorizarão a dizer, a existir, a encontrar esse nome, Gabi Celan.